segunda-feira, 30 de novembro de 2009

"A festa da menina morta" é o melhor filme nacional que já assiti

É com esse título xôxo e óbvio que mais parece redação de 4º série que dou início a esse post, porque "A festa da menina morta", primeiro filme de Matheus Nachtergaele , é simplesmente e extraórdináriamente isso. O filme representa o que há de melhor e mais original no cinema nacional dos últimos anos, cinema como Amarelo manga e Baixio da bestas que faz grandes
filmes a partir de leituras extremamente realistas do universo nacional, consegue nos marcar sem grandes roteiros e sem grande finais de cair o queixo com um "Ohhh, nunca ia imaginar que fosse ela", cinema que não precisa de frases de efeito e nem de you damm mothefocka get your ass out of here, nossos queixos caem com cenas e personagens que tem cara de cotidiano, que tem cara de povo e nos surpreendemos com o fato da tela da tv parecer não um portal pra um mundo mágico com trilhas sonoras alucinantes e mulheres photoshopadas mas sim um espelho do que acontece na cidade dos homens. Esse cinema é como Grande Sertão: Veredas, pode-se até tentar mostrar pro gringo o quanto é bom, mas pra entender tem que ter o portugues(PT-BR) como língua mãe.

Não queria que fosse assim, pois não sofro da síndrome do underground onde o portador só engole a cultura produzida pra um nicho reduzido e revoltado, mas essa nova "escola" de cinema é pra poucos, a fórmula trabalha com ritmos e conteúdos muito distantes do onipresente cinema Americano-Hollywoodiano-BlockBuster-cute-vampires-suck-your-money; em festa da menina morta o ritmo do filme que não é nem tão rápido quanto o norte americano nem tão lerdo quanto o europeu, te leva (se você estiver disposto e sem preconceitos) a uma viagem de maria fumaça (tranquila mas marcante) para o coração da cultura, do pensamento e da religiosidade popular, mas não uma viagem do Globo Reporter onde um sóciologo gente boa mostra que tudo que é desconhecido e exótico tem seu valor e sua pureza, e que te faz crer que as tribos índigenas são mais um quadro do Debret do que meros pecadores como nós, a viagem tem muito mais um toque de Lars Von Trier do que de Jean-Pierre Jeunet, mostrando as origens dos ícones religiosos e da fé popular, que pode ser síncera, emocionate e de boa vontade mas que nasce de mentiras e é sustentada por intermediadores oportunistas e santos do pau e da cabeça oca.

Festa da menina menina morta agrada àqueles que já tiveram contato e gostam da recente produção brasileira de filmes que não estão em cartaz em cidades pequenas, e talvez agrade a quem procura por uma nova estética na 7º arte que fuja do hemisfério norte (tão capaz de produzir bons filmes também), mas se você tem uma desses duas características e é ateu, esse vai ser o melhor filme nacional já visto.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Escrever como um Hadouken

Escrever é o processo de transformação logos-phisys-logos, é tentar
transformar as sinapses dos neurônios em letras do alfabeto, é
colocar o cérebro numa peneira de pedreiro, chocalhar bastante e ver
o que vai sair.

E eu queria que não fosse assim, que não existisse essa barreira
técnica do pensamento chamada linguagem escrita, queria que os
pensamentos fluíssem como um hadouken pra fora de mim, que eu não precisasse dos limitados caracteres pra exprimir ilimitadas sensações.

A relação homem-papel deveria ser uma relação intrínseca, as idéias deveriam fluir como aquelas folhas que voam das pastas quando se da um ctrl+c ctrl+v no Windows, sem intermediários, sem carteiros. Queria que "jogar" não tivesse mil significados, só o significado que
preciso, só aquele que eu de RG.: 12927306-6 sinto sabe? Talvez cada um pudesse ter seu próprio alfabeto, e o meu "jogar" com a perninha do a mais comprida fosse único, e expressasse uma idéia só minha, e por mágica ou milagre divino quem lesse entendesse isso, sem precisar da ajuda de um livro chamado dicionário que tem um monte de "as" com perninhas iguais mas que confundem muito mais.

Queria que a arte de escrever dependesse muito menos de quantos sinonimos para "amar" uma pessoa conhece do que o verdadeiro sentimento de amor que um analfabeto tenha, deveria ser fácil assim, sem burocracia e sem grámatica, sem hierárquia e sem teoria literária, só como um pulsar sincero de energia do homem pra folha, como um Hadouken.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Era do mais ou menos

Quando Einstein usou o termo "relatividade" em sua teoria não imaginava que décadas mais tarde ele seria tão popularizado a ponto de ser usado em qualquer situação, hoje quando se ouve "isso é relativo" a última coisa que vem à mente é E = mc², o relativo tornou-se uma representação do pensamento, na melhor das hipóteses, equilibrado e coerente e, na pior, do relativista mundo da lua que não toma partido.

A impressão que se tem é que ter certeza de algo é tão old school que não vale a pena brigar tanto por uma idéia, se até matéria e tempo não são mais certezas quem dirá valores tão diluídos como a sexualidade e a ética; falar "eu acho" é mais sensato do que "eu sei". O filósofo platônico viajandão que diz "só sei que nada sei" tem mais olhos voltados pra ele do que o cientista caretão que tem certeza que o planeta está aquecendo.

A filosofia do Yin-yang penetrou toda e qualquer área do pensamento, desde a psicóloga do programa da TV que recomenda um equilíbrio entre a banda de forró do marido e os cultos evangélicos da esposa até o comercial do desodorante que traz o equilibrio perfeito das fragâncias. Até o capitalismo não é mais herói ou vilão, Margaret Thatcher's e Mariguela's não existem mais, os modelos pro mundo são os países europeus nórdicos, que combinam a empresa privada com o intervencionismo do Estado, esqueçeram de avisar pros Chaves que ele está fora de moda.

A dialética morreu, para te-lá é preciso da Idéia A e da idéia B, mas agora essas letras tão todas juntas, parecendo alguma coisa tipo Ӕ. A globalização interligou a cultura mundial pra transformá-la numa maçaroca cada vez mais sem cara e sem indentidade, o que vale é ser cidadão do mundo, comprar a camisa do Chelsea talvez faça mais sentido que comprar a do Flamengo.

O relativo invadiu também o campo acadêmico, pode-se escrever qualquer besteira desde que se respeite as regras da ABNT e se use palavras bonitas. "EXTRA EXTRA OVO FAZ BEM A SAÚDE", "No Globo reporter de hojé os maleficios que o ovo pode trazer a saúde". Mas é claro, tudo DEPENDE de quanto de ovo você consome e de um monte fatores biológicos hereditários etc etc etc.

A certeza já era, abraçe uma causa por mais de 5 anos você vai passar do grupo dos estabelecidos pro dos outsiders (ou o inverso).

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante" é o hit da pós modernidade, sem opinião, sem partido e sem cor preferida, vamos nos desprender de nossos ideários, joga-los num liquidificador e ver no que vai dar, não vamos valorizar nem o "eu" nem o "outro", e sim o meio termo, a balança que é mais forte que a espada e o cinza que é mais bacana que o branco ou preto.

Ou não.

domingo, 27 de setembro de 2009

Eu quero um funeral assim.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sinapses perdidas

Vou Ressussitar um post que fiz pro falecido Dedoduro.org só pra não deixar meu blog tão abandonado:

"

6 bilhões de formas de vida baseada em carbono pensando, agindo, discutindo, se matando, tendo filhos, se drogando, tomando decisões por elas e por outras formas de vida, 6 bilhões elevado à enésima potência de possibilidades de ações todo santo e maldito dia. Desses "zilhões" de acontecidos a mídia escolhe alguns e dá o nome de "notícia".

Assim como quando se fala em sabão em pó lembra-se de omo, quando se fala de mídia lembra-se de Globo, e eis que a gigante da informação poderia escolher dentre uma miríade de opções pra estampar na página inicial de seu site a tal coisa chamada "notícia", e ela escolhe essa:

Até cão faz festa pra Susana Vieira na avenida!

Eu até (acho) entendo esse lance das pessoas quererem saber da vida íntima dos artistas, é um traço característico dos micro cosmos sociais que agora na era da "grande aldeia", trazida pela globalização, se expande pra um nível maior permitido pelos meios de comunicação. Mas isso não torna o fato menos patético, a grande mídia que, em tese, deveria ter a função de manter o povo informado sobre fatos importantes do país e do mundo gasta um espaço valiosíssimo acessado por milhares de pessoas pra dizer que um vira lata foi acariciado por uma velha que perdeu o namorado drogado a pouco tempo (viu como to informado ;) )

É sobre esse tipo de coisas que precisamos saber? Pra dar umas risadas e dizer "oooolha que fooofo" talvez sim, mas é isso que importa? só isso que importar? Acho que não. 30 minutos de jornal nacional e ainda tem gente que acha que existe jornalismo neutro, como em 30 minutos se fala sobre o mundo com neutralidade? Em um horário tão caro e numa emissora com rabo mais preso do que um rato na ratoeira.

Bem, mas é isso que da audiência né? quem pode culpar o cara que escreveu a matéria por dar às pessoas o que elas querem? quem pode achar culpados? em quem temos dar o head shot? lutar contra um inimigo sem face é complicado, não pra fazer como na segunda guerra mundial e gritar

"Brota a cara Hitler!!!"

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Pitágoras e a consciência animal

Diógenes Laércio, VIII, 36 “Uma vez, dizem eles, ele [Pitágoras] ia a passar quando um cachorrinho estava a ser açoitado, e ele encheu-se de pena e disse “parem, não lhe batam, pois é a alma de um amigo que reconheci ao ouvi-lo ladrar”

Porfírio Vita Pythagorae, 19 (DK 14, 8 a) “No entanto, o que se segue tornou-se conhecido de todos: primeiro, que ele sustenta que a alma é imortal; em seguida que ela se transforma noutras espécies de seres vivos; e ainda que os acontecimentos recorram em certos ciclos, e que nada é jamais inteiramente novo; e finalmente que todas as coisas vivas deveriam ser consideradas afins. Pitágoras parece ter sido o primeiro a trazer estas crenças para a Grécia.”

Porfírio, Vita Pythagorae, 7 (DK 14, 9) “...não só abster-se de coisas vivas, mas também nunca se aproximar de magarefes e caçadores”

Dos filósofos da antiguidade clássica Pitágoras foi um dos que, como Sócrates, não nos deixou pensamentos em forma de escritos próprios, no seu caso isso provavelmente se deu pelo caráter da escola pitagórica: que funcionava como uma sociedade secreta iniciática, onde a construção dos saberes acontecia num misto de misticismo, religiosidade e metodismo, isso sem deixar de lado o caráter “cientifico” que tanto a consagrou desde os tempos antigos até hoje.

Tudo que se sabe sobre Pitágoras vem dos escritos de terceiros, nem ao menos pertencentes à ordem, já que umas das regras da mesma era o sigilo total por parte de seus membros; uma vez compreendendo isto nada que é atribuído a Pitágoras pode ser considerado como certo, o desafio é traçar os pontos em comum das diferentes escrituras para chegar a uma conclusão mais perto do que possa ser a verdade por trás dessa figura tão desconhecida e ao mesmo tempo tão lembrada nos tempos modernos.

Um dos pontos do pensamento pitagórico que talvez mereça um foco maior no estado de coisas da sociedade contemporânea, mais do que talvez tenha sido dado em seu próprio tempo, é a questão do parentesco de todas as coisas vivas, que como o próprio conceito se auto-explica parte do pressuposto de que tudo que tenha uma vida (na concepção pitagórica uma “alma”) possui, mesmo que em menor ou maior grau, um parentesco direto e real e não apenas simbólico. Quando esse artigo colocou “mais do que talvez tenha sido dado em seu próprio tempo” quis dizer que a relação para os gregos antigos de homem-natureza estivesse muito mais clara no que para nós contemporâneos, isso é notado ao perceber que os embates que os pitágóricos receberam por parte de filósofos opostos a suas doutrinas aconteceram devido ao caminho religioso, e emocional, que os pitagóricos traçavam para buscarem suas comprovações “cientificas” e não por ele alegar um parentesco entre todas as coisas vivas. Mesmo que para o pensamento moderno Pitágoras seja um representante desse pensamento que traça parentescos entre todas as coisas vivas, alguns traços, mais tênues talvez, disso podem ser percebidos ao sabermos que o golfinho era tão venerado pelo pensamento grego que o Oráculo que falava em Delfos, a única divindade capaz de fazer a comunicação entre Zeus e os meros mortais, não era outro senão o deus golfinho Apolo Delfino.

Mesmo que ainda esse pensamento pitagórico possa ser controverso, tendo como base argumentos mais religioso-míticos do que puramente éticos (pela possível proibição dos pitagóricos comerem alguns vegetais também) ainda sim indica um aprofundamento muito grande dos gregos no campo da consciência animal e da noção mais ética de justiça:

Da consciência animal pelo fato de que mesmo que Pitágoras enxergasse no tal cachorro uma alma de UM amigo e não o próprio animal como tendo uma alma amiga em si, isso não eliminar o fato de Pitágoras, por ter admitido que animais possam servir como receptáculos para nossas almas, possa ter antecedido Charles Darwin no que diz respeito a considerar todos os animais diferentes de nós não em grau, mas em gênero, pois aquele que recebe uma alma humana não pode ser menor do que esta, logo, mesmo que atributos de qualidades possam ser atribuídos aos animais, atributos de grandeza ou inferioridade não deveriam numa possível racionalização do pensamento pitagórico. Assim como o caráter religioso da seita pitagórica não invalidada sua mais popular descoberta, o teorema de Pitágoras, também não deve relegar a segundo plano essas percepção tão importante e ao mesmo tempo tão relegada pela história da filosofia de uma proximidade tão grande entre homens e animais.

Para demonstrar o aprofundamento a uma noção mais ética de justiça se faz útil citar um trecho da República de Platão em que o personagem Glauco esboça o que seria o mais justo dos homens:

“A semelhante homem que acabamos de imaginar, confrontemos o homem justo, simples e nobre, desejoso, como diz Ésquilo, de ser bom e não parecer bom. Vamos, contudo, privá-lo desta aparência, pois se parecer justo receberia em decorrência honrarias e recompensas e, em tal caso, não se saberia se assim se comporta por amor da justiça ou por ter em vista honras e louvores. Deve-se, portanto, despojá-lo de tudo, menos da justiça, para contrapô-lo ao outro.” (Livro II Cap. IV)

O que parece claro neste trecho da República é que o verdadeiro homem justo faz a justiça por amor e não por “honrarias e recompensas”, logo, o tratamento ético aos animais que começou a ser esboçado por Pitágoras tende ir rumo a esse tipo de justiça, visto que a opção por não cometer injustiças a seres desprovidos do logos não trará por parte destes nenhum reconhecimento, recompensa ou honrarias, diferente das relações homem-homem que podem acontecer visando tais fins, a relação homem-animal é a mais sincera das relações, onde o bem ou o mal empregado são seus próprios meios e fins: o bem pelo bem e o mal pelo mal. Talvez esse argumento caia por terra em uma sociedade onde o tratamento ético aos animais deixe de ser uma escolha pessoal e passe a ser uma exigência coletiva, onde como na seita de Pitágoras a “dieta pitagórica” seja a regra e não a exceção, mas não em um mundo onde a ausência da percepção da relação homens-animais faça com que os primeiros façam uso do logos como uma forma de dominação dos segundos.

Esse nascimento de um pensamento tão respeitoso e ético em relação a tudo que se possa atribuir mais do que uma vida, mas uma existência enquanto ser não foi um dos legados imediatos que a Grécia antiga nos deixou, seja pelo motivo x ou y o fato é que o que hoje chamamos de “direitos animais” ficou no limbo das grandes questões da humanidade, mesmo que esporadicamente tenha aparecido em personagens relevantes como Leonardo da Vinci e São Francisco de Assis nunca foi eixo central de debate e nunca causou convulsões sociais como temas talvez menos relevantes como os embates iconoclastas cristãos. Essa retomada contemporânea das questões ambientais que trazem junto, mesmo que em menor grau, o debate sobre os direitos animais parece muito menos fruto de um sentimento sincero de justiça tal como idealizado por Platão e muito mais uma extrema necessidade da espécie humana de conservar o planeta Terra que, por enquanto pelo menos, é sua única morada e, obviamente, indispensável para sua sobrevivência.

“Justiça platônica” ou “interesse por sobrevivência” o fato é que as relações do homem com o meio ambiente estão na pauta do dia dos debates contemporâneos e o século XXI traz uma ótima oportunidade para o resgate dessas idéias de Pitágoras contidas em pedaços de textos tão pequenos e tão escassos, mas que não deixam de ser tão inspiradoras e potencialmente revolucionárias.

Não há como negar que grandes nomes como Aristóteles tenham dado toda a base para a construção do mundo tal como o é hoje: baseado na ciência, na razão, no método e nos caminhos lógicos, foram essas bases que nos ajudaram a construir a ciência moderna que por sua vez trouxe todo o maravilhoso mundo tecnológico que vai desde a onipresente caneta esferográfica à maior máquina construída pelo homem: o LHC que visa encontrar a “partícula de Deus” (mais uma idéia grega). Sem querer negar ou desvalorizar o legado de grandes nomes como Aristóteles, talvez seja hora do homem se voltar para o pensamento contido nas poucas linhas do pensamento de Pitágoras, por que encontrar “alma” em um cão talvez seja a mais racional das conclusões.

domingo, 29 de março de 2009

Idéias

"Idéias corretas nunca são suficientes; não se crê e põe em prática idéias pelo fato de elas serem corretas. Elas se tornam idéias de nosso tempo só quando são adotadas por aqueles que chegam a acreditar no nosso próprio poder, que usam-no para lutar por meio das instituições e para consolidar esse poder. Nós, representantes dos descamisados, temos pouco poder, mesmo com nossas pastas carregadas das melhores idéias."

Retirado daqui